Um dos meus primeiros empregos fora da universidade foi em uma empresa na qual o core business era desenvolvimento de software. Lembro-me dos meus primeiros anos lá. Como tudo era novidade e como tudo era empolgante (coisas de Nerd :-) ): Migrar de Java 1.1.8 para 1.2.2; usar WebLogic 5.1 ao invés de JRun, ANT ao invés de scripts .bat e etc. Recordo-me da quantidade absurda de informações que eu conseguia absorver, processar e transformar em algo útil (informações isoladas só servirão para conversa de bar, se você não aprender a usá-las corretamente). Olhando para trás percebo a diferença de energia que eu tinha quando comparo com hoje: Academia, trabalho, universidade, namorar, jogar truco (e conversa fora), ver TV (e jogar mais conversa fora), estudar e, praticamente, não dormir. E eu nem me sentia cansado! Mas dizem que vemos o passado de uma forma mais gloriosa do que ele realmente foi. Então…

A empresa em questão foi uma das minhas favoritas: Era pequena e inovadora, as equipes eram capacitadas, o ambiente de trabalho era agradável e “desafiador” (no bom sentido da palavra) e as pessoas no comando eram acessíveis e, na maioria do tempo, razoáveis. Ao menos foi assim para mim. Pode ter sido sorte ou ilusão. Não sei. Trabalhei nessa empresa por 3 ou 4 anos. Muitos dos meus amigos e amigas ainda trabalham lá.

Bom, o fato é que, depois de um tempo, eu me cansei. Discordava de como algumas coisas eram feitas, da forma com algumas pessoas me viam ou de algumas das minhas atribuições. Não foi nada repentino. Foi um processo gradual e lento. Uma vez que não havia nada que pudesse ser feito ou mudado (ao menos do meu ponto de vista), para que eu permanecesse na empresa, decidi deixá-la. Isso foi em 2003 ou 2004, se não me engano. Apesar de ele não se lembrar, recordo-me até hoje da conversa que tive com o gerente da minha equipe, que eu também tenho como um amigo: Ele me disse que não sabia o que fazer e que sentia que tinha falhado comigo…

A bem da verdade é que ele não falhou. Eu apenas mudei e a forma como eu via a empresa ou como eu me via dentro dela também mudou. Eu “cresci”. Algumas pessoas crescem e permanecem dentro das empresas (não há nada de errado com isso), mas outras não. A meu ver era algo necessário. Eu queria saber “o que havia lá fora”, até onde eu poderia chegar sozinho, andando com as minhas próprias pernas e tomando as minhas próprias decisões. Para mim era o mesmo sentimento de quando eu saí de casa (*) para ingressar na universidade: Por mais que eu gostasse de onde estava e por mais medo que eu tivesse por não saber o que aconteceria dali para frente, eu precisava tentar. A curiosidade e o vislumbre das possibilidades superava o medo e a insegurança. Claro que não foi uma decisão fácil. Nunca é. Mas ninguém pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo ou percorrer todos os caminhos: The Road Not Taken (O Caminho Não Percorrido). E eu não troquei de empresa. Eu, simplesmente, saí para ver o que aconteceria.

Por que eu estou escrevendo tudo isso? Bom, porque é uma das razões do nome/título desse site/blog ou como quiserem chamar: As pessoas são diferentes. Eu não acredito em verdades universais ou receitas de felicidade prontas. Eu não sigo roteiros de vida que não façam sentido para mim. Eu tomo as minhas próprias decisões. Eu tento aprender com os erros dos outros, mas também preciso aprender com os meus próprios erros. Às vezes eu comento com uma amiga que a vida dela é a oportunidade que ela tem de errar e que ela não deveria vivê-la nos termos dos outros, mas nos seus próprios.

Se eu não estou feliz onde estou, alguma coisa precisa mudar. Se o lugar não pode ser mudado, então eu posso.
Quando crianças vemos o mundo como ele é: Um universo de possibilidades. Quando adultos gostamos de palavras como “estabilidade” e “segurança” e nos agarramos com unhas e dentes à situação atual, não importa o quão miserável estejamos nos sentindo.
De vez em quando eu escuto algo do tipo “Você precisa ser mais responsável” ou “É porque você ainda não tem muitas responsabilidades”. Bom, garanto que irresponsabilidade não tem nada a ver com isso. Ao menos não para mim. Nunca faltou e nem há de faltar nada para as pessoas que dependem ou venham a depender de mim, profissional ou pessoalmente. Pelas pessoas que são parte da minha vida, eu ignoraria meu diploma e trabalharia de sol a sol, em qualquer lugar, se fosse necessário.

A questão aqui é como você verá sua vida e a si mesmo quando olhar para trás. Está vivendo o “agora” de olhos abertos ou está se limitando a seguir o “script”?

(*) As saudades também me matam, às vezes. Mas não me esqueço de quem sou, de onde vim e nem de todas as coisas boas que vivenciei e pessoas que com as quais eu convivi e que fazem parte da minha vida até hoje :-P