Abro a porta do elevador e, enquanto alcanço as chaves no bolso, a luz do corredor se acende. À frente do meu apartamento, uma caixa enorme. Era o fogão que eu encomendara, entregue durante a minha ausência.

Mas, a parte mais curiosa ainda estava por vir. Afixada à caixa, havia uma pequena nota, de um dos meus vizinhos. Ele pedia, gentilmente, pela caixa. Queria construir uma casa de papelão para os netinhos. Sorri. Desembalei o fogão e lhe dei a caixa.

Hoje, almocei no Marietta. Com a fome que eu estava, acabei por pedir dois daqueles sanduíches “naturais”. Quando chegaram, arrependi-me e perguntei à garçonete se ela poderia embrulhar o segundo para a viagem.

Fiz minha refeição. Tomei a minha água. Como sobremesa, pedi creme de papaya. Paguei a conta, peguei o sanduíche e voltei para casa.

Há uns poucos passos dali, uma senhora me parou. Segurava uma sombrinha. O tom de pele lembrava o da minha avó paterna, um marrom-apretoado, mas muito escurecido pelos dias ao sol.  Alguns dentes lhe faltavam.

- Moço, pode me ajudar? – Perguntou a senhora, provavelmente, referindo-se a dinheiro.

Olhei para o sanduíche adicional do almoço e perguntei:

- Posso te dar um sanduíche. Quer?

- Quero – ela respondeu.

Dei-lhe o sanduíche e segui o meu rumo. Não olhei que fim ela deu a ele. Isso é com ela.

Voltei caminhando e refletindo. Cada um tem a sua visão da vida, mas, para mim, é como se ela fosse uma tela feita de caos, adversidades e de coisas não tão bonitas, na qual vão sendo “pincelados” momentos de compaixão, bondade e gentileza.

Talvez, quando eu estiver mais velho, faltar-me-á tudo: dinheiro, saúde e companhia. Mas eu não hei de faltar!

Que eu sempre seja gentil comigo mesmo e que aprenda, mesmo que apenas com o tempo, a ser gentil também com aqueles que me acompanham. A vida já é difícil por si só para que ainda abramos mão desses pequenos momento de luz.