Recordo-me de um colega das aulas de dança dizendo a seguinte frase: – Eu não sofro por mulher nenhuma.

Estranhamente, costumava ouvir o mesmo de uma companheira que tive: – Eu não sofro por homem nenhum.

E esses não são casos isolados. Estou certo de já ter ouvido o mesmo de outros homens e mulheres e, estando eu suscetível ao sofrimento resultante do amor, pergunto-me se me falta a “leveza” ou o “desapego” de que tanto falam. Faltar-me-ia, talvez, discernimento?

Honestamente, eu não sei. A impressão que eu tenho é que a única forma de não sofrer é não se entregando ao amor e não se expondo completamente ao outro, o que levaria a um quase amor ou a um meio amor.

E, se o término será ruim de qualquer forma, por que não potencializar a parte boa e vivê-la intensamente? Por que não entrar no campo de batalha, de peito aberto, desprovido de armaduras, sabendo que o outro poderá feri-lo mortalmente, mas confiando na intenção dele de não o fazê-lo? Por que não ser o primeiro a abaixar a guarda? Seria isso entrega ou falta de amor próprio?

E quando penso em outra forma de amor, que uma amiga definiu como sendo “a mais pura forma de amor”, o amor maternal, questiono-me se a mãe também não sofre ao ver os filhos partirem e seguindo seu rumo. Por mais que ela saiba que é necessário, por mais que ela queira que eles alcem voo, não lhe apetece nem aquela pontinha de tristeza ou de saudades? E, sabendo dessa dor, ela deixará de amá-los ou os amará menos, agora, para evitar o suposto futuro sofrimento?

É possível se proteger das partes difíceis e ainda viver um amor que valha a pena? Ou não há como ter um, abrindo mão do outro?