Estive lendo alguns artigos sobre Hipnose e CBT (Cognitive-Behavioral Therapy) e acabei esbarrando em um assunto sobre o qual eu já quis escrever: o das falsas memórias.

Eu não tenho recordações precisas sobre minha infância e sobre a minha adolescência. Para ser sincero, sinto como se eu tivesse uma espécie de “janela de memória”, que se estende (mais ou menos) até os últimos 5 anos. A maioria das coisas antes dali assemelha-se a uma névoa de memória, quase que a uma vaga lembrança.

Além disso, já reparei que, em determinadas situações, eu não consigo dizer assertivamente se algo é uma memória (i.e., algo que me aconteceu), se foi um sonho, se eu foi um pensamento que tive outrora ou se foi um comentário de outrem (i.e., uma estória que me contaram).

Recordo-me de já ter lido que uma memória é mais “vívida” quanto mais intensos forem os sentimentos/emoções associadas a ela. Ou seja, se o momento daquela memória foi um de extrema alegria ou de muita tristeza, essa memória terá mais “peso” do que as outras e, possivelmente, parecerá mais “nítida” e você a acessará ou a reviverá mais vezes.

Do ponto de vista biológico e evolucionista, faz sentido. Seria mais uma ferramenta para a auto-preservação.

Também me lembro de mencionarem o fato da memória ser um conjunto de percepções e não somente uma “foto” do que aconteceu. É como se fosse o “pacote” de uma série de percepções que você teve no momento: visuais, gustativas, táteis, olfativas e/ou auditivas.

Voltando à questão das minhas memórias de infância/adolescência, em muitos dos meus encontros familiares, justamente por eu não me recordar dos acontecimentos, acabo confiando na memória dos outros envolvidos para “reconstruir” a minha própria. Dessa maneira, se minha mãe ou minha prima mais velha contarem uma estória de um jeito e eu não tiver a mais vaga lembrança daquilo, aceitaria como verdade a forma como descreveram o meu envolvimento no caso, a menos que este me soasse extremamento absurdo.

Todavia, sabendo que nem a mesma pessoa consegue contar a mesma estória exatamente da mesma forma, em todas as vezes (a menos que essa estória seja 100% inventada), questiono-me quão confiável é a memória do outro?

Quão concretas, precisas e invioláveis são as nossas próprias memórias? Quantas delas já foram afetadas pelo tempo, por estórias que nos contaram ou por experiências que vivenciamos em outras ocasiões?

E, se 1/3 do que somos for definido pelas memórias que temos e uma parte significativa delas for imprecisa, irreal, inventada, seríamos nós igualmente imprecisos, irreais e inventados?