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A Esquizofrenização da Internet

Foto do escritor: Daniel DanteDaniel Dante

Até o ano passado, o diagnóstico coletivo da internet girava em torno de ansiedade, depressão e TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade). Todo mundo estava sobrecarregado, exausto e se autoanalisando.


Começo a perceber que em 2025 temos um novo estado digital: O Schizoposting, narrativas maníacas e hipersimbolismo.


Basicamente, a internet está tendo um surto psicótico coletivo.


Antes, falávamos sobre a internet como uma máquina que destruía a atenção. Era sobre ciclos de dopamina, troca frenética de abas, a incapacidade de ler um artigo inteiro sem se distrair. Agora, a coisa vai além da atenção fragmentada. Estamos falando de realidade fragmentada.


A forma como as pessoas estão falando sobre seus pensamentos online mudou. Antes era “não consigo focar”, agora é “estou vendo conexões em tudo”. Antes era “preciso desacelerar”, agora é “não durmo há três dias e acabei de perceber que a cultura pop é um loop infinito de significados colapsando”.


As pessoas não estão apenas sobrecarregadas. Elas estão descoladas da realidade.
 

Schizoposting, conspiracionismo e cultura do algoritmo

O termo schizoposting surgiu em comunidades como o 4chan, e inicialmente era um fenômeno associado à extrema-direita.


The term blends “schizophrenia” and “shitposting,” and is used both ironically and unironically in online spaces. While some individuals engage in this behavior to mock or troll others, it also trivializes serious mental health issues, often making light of conditions like schizophrenia. Unfortunately, it has led to harmful consequences for those suffering from mental illnesses, as it can perpetuate stigma and misrepresent the challenges they face. Some examples of schizoposting include posting long, disorganized rants, using bizarre grammar and spelling, and combining surreal or conspiratorial content with everyday memes​(Know Your Meme)(Psychiatry Magazine)(Urban Dictionary).

Segundo o Reddit, ele se refere a postagens que imitam padrões de pensamento paranoicos e desconexos, muitas vezes relacionados à esquizofrenia ou a colapsos mentais. São textos caóticos, teorias da conspiração, conexões absurdas entre coisas que não têm nada a ver.


Basicamente, é esquizofrenia misturada com shitposting. E essa estética se espalhou para a cultura digital em geral, muitas vezes usada de forma irônica.


Se a internet do TDAH era sobre pular de um assunto para outro, a internet esquizo é sobre sentir que tudo está conectado.


E aí entram os algoritmos. Eles nos servem realidades fragmentadas e contraditórias o tempo todo.


Em um único scroll, você vê notícias de guerra, um vídeo do TikTok ensinando como burlar a Receita Federal, uma thread gigante sobre como as cores da Heineken e do Banco do Brasil fazem parte de um código Illuminati, e um gráfico sobre como o tempo é uma construção social.


Essa hiperestimulação não se trata apenas de velocidade. Ela alimenta paranoia.


Quem controla o que a gente vê? Essas conexões são reais ou apenas parecem reais porque foram jogadas para nós pelo algoritmo? Cada pedaço de conteúdo vira uma possível toca de coelho. E cair em uma significa ficar se perguntando se você realmente descobriu uma verdade oculta ou apenas enganou a si mesmo para enxergá-la.

 

A internet transformou tudo em um presságio

Lembra quando, no BBB, uma participante começou a analisar os gestos e expressões faciais dos participantes como se fossem mensagens cifradas? Ou quando um simples post no Twitter é interpretado como uma grande revelação sobre a política global? O schizoposting se alimenta disso.


Coisas banais se tornam imensamente significativas.


Por que determinadas palavras e símbolos continuam aparecendo na cultura pop? Será que aquela coincidência no TikTok é realmente só uma coincidência? O que significa esse novo post misterioso da Anitta?


A internet fez com que a realidade parecesse um puzzle infinito.

E não é só ironia ou um jogo pós-moderno. As pessoas estão, de fato, começando a perceber o mundo assim. As linhas entre brincadeira e revelação, entre teoria da conspiração e paranoia real, estão cada vez mais borradas. O resultado? Uma cultura inteira que parece estar tentando decifrar a Matrix ou tendo um surto coletivo.

 

A paranoia virou um esporte coletivo

O pensamento conspiratório não é mais coisa de lunático com touca de alumínio ou de pessoas que rejam para pneu. A própria estrutura da internet incentiva hiperparanoia.

Cada conteúdo parece levar a algo maior.


A forma como consumimos informação: tudo fora de contexto, tudo jogado de forma imprevisível, nos faz sentir constantemente desestabilizados.


O que é real? O que é uma sátira? O que é um anúncio? Quem está dentro da piada e quem é a piada?


E isso não é só uma questão filosófica. Está moldando comportamentos.


Se os anos 2010 foram sobre desapego irônico, os anos 2020 são sobre apego exagerado a símbolos, significados ocultos e tribalismos digitais.


A paranoia não é mais individual. Ela é em rede.

 

E agora, o que acontece?

Estamos todos enlouquecendo um pouco? Difícil dizer se a internet está apenas refletindo nosso estado mental coletivo ou ajudando a construí-lo.


Provavelmente ambos.


O que está claro é que já superamos aquela fase do “vou me auto diagnosticar com ansiedade” da internet dos anos 2010. Agora, entramos de cabeça no modo esquizo, tentando navegar num espaço online onde o significado está hiperpresente e ao mesmo tempo completamente colapsado.


Chegamos a um ponto de ruptura onde tudo volta ao normal? Ou a esquizofrenização da internet continua até que ninguém mais consiga distinguir se está descobrindo algo importante ou apenas vendo a última alucinação do algoritmo?


Seja como for, respira fundo. Bebe uma água.


E tenta não pensar demais naquele número estranho que apareceu para você agora há pouco. Ou pensa. Afinal, tudo está conectado, né?


 
 
 

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